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Entre gênios e monstros: em nome de quem alegam falar conservadores.

Toronto, 01 de maio de 2022.

André Sena*


Muito se tem falado sobre conservadorismo e avanço conservador no Brasil. Pouco se explora sobre o que seria de fato o arcabouço cultural e intelectual conservador em nome do qual se ventilam certas práticas políticas atualmente no país, ou sobre as quais alegam basear-se determinadas afiliações partidárias ou falangismos ideológicos.




Crédito da imagem: Mediu Portal.



Os defensores de um pensamento conservador original alegarão que os atuais conservadores brasileiros, especialmente os que ocupam as esferas do poder, tem muito pouco ou nada que ver com suas ideias genuínas. Há ainda aqueles que afirmam que os movimentos conservadores de diversas matizes, que de alguma maneira dominam hoje o debate público brasileiro, sustentam-se efetivamente nas tais ideias originais, que mesmo bicentenárias não podem ser isentas de legitimar posições consideradas retrógradas, integristas e muitas vezes obscurantistas.


Em virtude da necessidade de pensarmos de fato que ideias, conceitos ou movimentos (ao menos alguns deles) de fato estão na origem do que se pode chamar de conservadorismo, decidi ajustar este meu texto abaixo, publicado quando da eleição de Donald Trump em 2016. Ainda que escrito para aquele momento, creio que ele ainda nos ajuda a tornar mais visíveis alguns aspectos do conservadorismo cultural que de alguma maneira encontram-se presentes em alguns discursos no Brasil de hoje.


Iniciou-se no dia 08 para 09 de novembro de 2016 o que podemos chamar de Pax Trumpiana. O então comentarista político e jornalista da Band News, Ricardo Boechat, cumprimentou seus ouvintes na manhã posterior à eleição de Donald Trump com um provocador “bem vindos ao primeiro dia do fim do mundo”. Naquela época, meus alunos acordaram sequiosos de opiniões, debates e verdades de seus professores.


Anos passados, acredito que esse momento que estamos vivendo ainda merece um texto sobre o Conservadorismo Cultural, movimento global surgido há décadas e que a fórceps será, sabe-se lá, associado no âmbito norte-americano à horda trumpiana daqueles anos.


Talvez ninguém tenha escrito melhor sobre o tema do que Russell Kirk, autor de The Conservative Mind: from Burke to Eliot. Mais do que simplesmente um manual sobre ideias conservadoras, a obra de Kirk é uma espécie de repertório de vultos da política, religião e do campo das artes que se alinharam ao movimento essencialmente contemporâneo do conservadorismo cultural.


Nos Estados Unidos este é um fenômeno inscrito naquilo que alguns pensadores definem como Luta Cultural que opõe Tradicionalistas e Progressistas. Uma espécie de querela entre antigos e modernos sob a roupagem contemporânea. Um dos textos mais interessantes que nos ajudam a defini-lo é a obra Orthodoxy, publicada em 1908 por G.K. Chesterton.


O texto narra a viagem de um homem que saiu ao mar em busca de novos mundos, mas acaba, em virtude de intempéries, fortes correntes e incidentes de toda sorte retornando para a costa de onde partiu. E ao voltar, ele a observa novamente, mais de perto, começando a gostar do que vê. Substitui então sua curiosidade em viajar por outra vontade: a de explorar sua própria terra, de onde originalmente partira. Ela passa então a lhe bastar.


O Conservadorismo Cultural propõe um olhar para dentro; um mergulho no próprio universo, no territorial, tido por genuíno. Os riscos de distorções são evidentes, e o perigo aparece em cada esquina dessas curvas conservadoras. Mas o que fazer dos grandes nomes que nasceram dele, ou nele se inseriram com o passar do tempo, ou até mesmo a ele sobreviveram?


Encontramos no Japão o exemplo do gênio de Yukio Mishima. O autor de O Templo do Pavilhão Dourado é devorado por muitos de nós de forma tão desapercebida, tão naif, que sua filiação ideológica ao tradicionalismo xinto (憂國) surge diante de nós como uma leve brisa impressionista. Fundador de sua própria milícia de extrema direita, Mishima praticou o seppukku (切腹) em 1968 após fracassar na tentativa de liderar um golpe de Estado em seu país.


O que dizer de Ezra Pound? Pensador modernista, um dos maiores poetas americanos de todos os tempos. Pound foi uma influência na descoberta e criação de gênios incontornáveis do pensamento de expressão inglesa como T.S. Eliot, Robert Frost, James Joyce, Ernest Hemingway. A crítica de Pound ao mundo liberal-capitalista provocou seu caso de amor com o fascismo italiano, de quem foi um grande entusiasta. Chegou a encontrar-se com o Duce e declarar abertamente seu antissemitismo em jornais europeus.


Roger Scruton, em T.S. Eliot as a Conservative Mentor insere o grande autor de The Love Song of Alfred Prufrock no olho do furacão cultural conservador. Seu apego à continuidade, sua conversão ao anglicanismo em 1927 e a descrição que Eliot faz de algumas minorias como os judeus em alguns de seus poemas ferem sua genialidade, mas não a neutralizam whatsoever.


A chegada de Donald Trump foi compreendida por muitos como um trombone desafinado na orquestra cultural-conservadora. Aqueles que se afinam com o conservadorismo cultural tout-court (onde habitaram os gênios acima descritos) não se reconheceram no bilionário-presidente, e se constrangeram com sua vitória.


Não é para menos. A espinha dorsal do conservadorismo é seu culto ao passado e seu passado culto; Trump apareceu em 2016 como um tosco sinal de futuro; um futuro pós-semântico que só se sustenta culturalmente no zero expressivo, no dadaísmo insuficiente e claudicante, no niilismo profundo das extremas-direitas. Gênios às vezes namoram monstros. Mas sobrevivem a eles porque deixam um legado que a superficialidade dos füheres de todos os minutos, como dizia a modernista brasileira Patrícia Galvão no início do século passado, será sempre incapaz de usurpar.


*André Sena é historiador (UERJ).


REFERÊNCIAS:

RUSSELL, Kirk. The Conservative Mind. From Burke to Eliot. Regenery Pub. 1985.

CHESTERTON, Gilbert. Orthodoxy. Dodd, MeadandCo, New York, 1908

SCRUTON, Roger. T.S. Eliot as a Conservative Mentor. The Intercollegiate Review, Fall2003/Spring2004.

COUTINHO, João Pereira. Ideias Conservadoras. Explicadas a revolucionários e reacionários. Ed. Três Estrelas, 2014.

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