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Divagações sobre uma efeméride carioca

Rio de Janeiro, 15 de julho de 2021.

Luciene Carris*


As comemorações do último dia 14 de julho passaram ignotas por aqui. Acho que não haveria de ser diferente por conta das circunstâncias que nos norteiam e nos dispersam com a pandemia da Covid-19, que assola o país e por outras circunstâncias. Me veio a lembrança das aulas da graduação, quando se discutia o papel das comemorações de determinadas datas específicas e dos centenários, bem como os usos políticos de tais eventos, em especial essa data, a Tomada da Bastilha em 1789, um episódio marcante da Revolução Francesa, que produziu ecos em vários pontos do globo. É bem verdade que não se trata de uma data redonda. Muitos historiadores costumam se debruçar sobre tais efemérides, uma forma de tentar compreender e pensar a memória coletiva, como determinadas tradições são inventadas ou ainda discutir as polêmicas em torno delas, o que de certo incentiva novas pesquisas até bem originais, além de inúmeras polêmicas.





De fato, havia esquecido dessa data. Me lembrei quando passei o olho em uma matéria publicada por um amigo em seu perfil pessoal do Facebook. Assim, me bateu uma certa curiosidade sobre a efeméride do dia para o Rio de Janeiro, lugar de onde eu escrevo. Daí, fui localizar uma obra bem interessante na minha biblioteca: Efemérides Cariocas. Como se trata de um livro de efemérides, me questionei sobre um ou outro episódio que pode ou não ter sido descartado na seleção, se trata de um trabalho de fôlego, sem dúvida, bem documentado.


Alguns episódios se destacam nessa data como falecimentos, nascimentos, inaugurações etc., assim, observei o nascimento do industrial Henrique Lage, em 1881, que se casou com a cantora lírica italiana, em 1925, Gabriela Bezanzoni. O casal foi responsável por organizar diversos eventos culturais em sua residência na rua Jardim Botânico. Hoje podemos apreciar a sua bela residência em estilo eclético e o parque que guarda ainda o seu sobrenome, tombado pelo IPHAN devido o valor do patrimônio histórico e paisagístico, costuma ser sempre bem visitado por turistas e cariocas.


Um pouco distante da zona sul, um incêndio no Teatro Polytheama Fluminense ocorreu em 1894, causou pânico e muitas perdas materiais. Na ocasião, se encenava a ópera Il Rigoletto de G. Verdi na presença de 1500 pessoas, não há registro de óbitos. Localizado na rua do Lavradio, no Centro da cidade, era também conhecido como Teatro Circo, inaugurado em 1876, numa espécie de pavilhão de madeira. Os artistas da Companhia Lírica Italiana da Empresa Sansone tiveram prejuízos materiais consideráveis em joias e roupas, além da perda do material cenográfico. No fatídico dia, todos fugiram com a roupa do corpo. Não consigo imaginar a dimensão do susto e do medo que tomou o lugar. Posteriormente, ali perto foi inaugurado, tempos depois, em 1909, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro na Cinelândia. Inspirado no edifício da Ópera de Paris (1875) projetado por Charles Garnier, o congênere brasileiro podia receber 1739 espectadores sendo ampliado tempos depois a sua capacidade original.


A volumosa obra Teatros do Rio do século XVIII ao século XX, resultado da tese de doutorado de José Dias, evidencia uma prolífica vida teatral no Centro marcada por cafés, bares e clubes, espaços de sociabilidades, como a Confeitaria Colombo, onde podia ver e ser visto. O teatro cumpria também essa função social, e muitos deles foram demolidos e reconstruídos no mesmo lugar. Mas tantos outros foram riscados do mapa no século XX. O polo cultural que era a Praça Tiradentes, perdeu espaço para os cinemas e para especulação imobiliária, dentre outros interesses.


Ainda assim, o Centro se manteve como o lugar da moda e palco das grandes novidades por um longo período, favorecida também pela aproximidade com as esferas de poder e com os setores financeiros e comerciais, muitas trabalhadores circulavam depois do trabalho pelos bares, teatros e cafés existentes. Havia ali uma vida intensa cultural e boemia para todos os gostos e bolsos. Centros culturais, livrarias, cafés, ruas como a do Ouvidor, o Arco do Teles, o Largo da Prainha e a Lapa, entre tantos outros espaços, fazem parte da minhas boas recordações do Centro do Rio de Janeiro, que frequentei outrora, antes da pandemia. Guardo certa nostalgia sentimental sobre tais espaços na esperança de que a região se recupere e que possamos desfrutar da possibilidade de caminhar pelas suas ruas, contemplando a beleza arquitetônica das antigas construções.


Efemérides como essas listadas acima possibilitam uma reflexão, que não se restringe a datas ou nomes de algumas figuras. Exemplificam o pouco interesse dos últimos tempos com a preservação do patrimônio e a memória da cidade, que foi sede do Império português, do Império do Brasil e da República. Infelizmente, parece, estar definhando bem diante dos nossos olhos como a rua da Carioca com apenas 300 metros de extensão, considerada como uma das áreas tradicionais, atualmente possui cerca de 25 lojas fechadas.


Ali resiste bravamente o Bar Luiz, localizado no número 39. Não é de hoje o estado crítico em que se encontra o Centro, a pandemia evidenciou o que já vinha se concretizando. Contudo, já se anuncia um empenho pela revitalização da cidade com novos programas. Quem sabe, a efeméride do Bicentenário da Independência do Brasil daqui a pouco, em 2022, possibilite a retomada de reflexões sobre novos projetos para o Rio de Janeiro e o empenho pela sua concretização de fato, pois é, quem sabe...


*Luciene Carris é historiadora (UERJ).



Referências:


DIAS, José. Teatros do Rio: do século XVIII ao século XX. Rio de Janeiro: Funarte, 2012.


FERNANDES, Neusa; COELHO, Olinio Gomes P. Efemérides Cariocas. Rio de Janeiro: Vozes, 2016.


GERSON, Brasil. História das ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-te-vi, 2016.


NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n.10, dez. 1993, p.7-28


Rio Memórias. Galerias: descubra o rio. Disponível em https://riomemorias.com.br/ Acesso em: 14 jul. 2021.





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