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De mãe para filha: duas escritoras e o seu tempo


Luciene Carris*

Rio de Janeiro, 01 de junho de 2021.

A pesquisa sobre as mulheres e a escrita no país tem recebido um certo fôlego nos últimos tempos. Coincidentemente, recuperei um pequeno texto que havia ensaiado há alguns anos sobre as trajetórias de Emília e Cecília, mãe e filha, que se dedicaram à escrita e se destacaram em seu tempo como escritoras.


Cecília Moncorvo Bandeira de Mello (1870-1948) era filha de Jeronynimo Bandeira de Mello (1838-1886) advogado e chefe de repartição na Secretária de Estatística do Império e de Emília Dulce Moncorvo Bandeira de Mello (1852-1910), uma jornalista e escritora que escrevia sob o pseudônimo mais conhecido de Carmen Dolores, mas usava outros nomes também como Julio de Castro, Celia Marcia, Mario Villar e Leonel Sampaio. A obra de Emília abrange crônicas, contos, textos de crítica literária, peças teatrais e um romance. Destacou-se durante a chamada Belle Époque como uma cronista da cidade, apesar de seus textos ainda serem pouco difundidos.


Emília publicou nas colunas de jornais brasileiros de diversas capitais brasileiras (A Notícia, O país, Correio da Manhã, Tagarela, Jornal das Senhoras, Jornal do Commercio, etc), escreveu inúmeras crônicas defendendo os direitos da mulher intelectual e profissional. Sua postura é considerada ambígua por alguns estudiosos em relação à emancipação feminista, ao seu anticlericalismo (defendia o divórcio, fora acusada de ateísmo, mas frequentava as missas aos domingos e fazia citações bíblicas em suas crônicas). Se considerava uma livre pensadora, desse modo, criticava a política então vigente, questionava que muito políticos eleitos, em nome de ganhos pessoais, atendiam a determinados grupos/elites que promoveram suas candidaturas, aliás, o que continua sendo uma crítica bem contemporânea.


Apesar de não apoiar publicamente a luta das sufragistas, não a atacou como outros fizeram, manteve-se neutra, daí as ressalvas ao seu feminismo. Alguns de seus biógrafos a consideram monarquista, apesar de não expor publicamente as suas convicções sobre o regime de D. Pedro II. Mas, "Carmen Dolores", Emília, demonstrava certo apreço a Família Imperial e criticou o banimento e o exílio com a Proclamação da República. A escritora era irmã de Dr. Carlos Arthur Moncorvo, fundador da Policlínica Dr. Moncorvo; Dr. Cândido de Araujo Vianna de Figueiredo e D. Thereza Christina de Araujo Vianna, figuras que aparecem com certa frequência nas colunas sociais dos periódicos do Rio de Janeiro, durante o período do Império.


Em suas crônicas publicadas no periódico O Paíz, levantou inúmeras bandeiras tais como: o direito ao respeito no espaço público (assédio moral e sexual), a denúncia da violência física contra a mulher, o direito da mulher ao divórcio e a denúncia da falta de isonomia entre a mulher e o marido quando o assunto é financeiro; além do direito da mulher à educação e ao trabalho – essas últimas, reivindicações iniciadas há várias décadas por outras mulheres que defenderam a emancipação feminina, mas ainda válidas na primeira década do século XX. Também era porta-voz do preconceito contra as mulheres que escreviam em jornais, ambiente marcadamente masculino.


O constrangimento das mulheres de andarem nas ruas cariocas no início do século XX foi retratado em suas crônicas. A forma declarada de denunciar o preconceito contra a mulher, entendido por ela como atraso do processo civilizatório é recuperado por outros especialistas como um “feminismo possível”. Perfeitamente compreensível, haja vista o anacronismo de se olhar o passado da luta pela emancipação da mulher e compará-lo com os anseios feministas contemporâneos. Vale destacar ainda que ao mesmo tempo que defendia o direito ao divórcio, ela revalidava a ideia de família tradicional heteronormativa.


Vale acrescentar que os Bandeira de Mello tiveram sete filhos: Cecília Moncorvo Bandeira de Mello, Gastão Moncorvo Bandeira de Mello (amanuense, ele atuou nas peças da mãe com a sua irmã Dulce que era pianista), Alice Moncorvo Bandeira de Mello (se casa em 1891 com o engenheiro civil e professor de matemática Francisco Baptista do Nascimento), Oscar Moncorvo Bandeira de Mello (falece em 1904, era bacharel em direito), Alfredo Moncorvo Bandeira de Mello, Gustavo Moncorvo Bandeira de Mello (inspetor da Guarda Civil) e Dulce Moncorvo Bandeira de Mello, que estudou piano, tocou em teatros e se divorciou amigavelmente em 1905 de Álvaro de Catanheda. Vale saber que a matriarca da família, Emília, sob o pseudônimo de Julio de Castro, fundou ao lado de seu genro Álvaro de Catanheda e Roberto d’Alle, pseudônimo de J. Roberto Escragnolle, o semanário Gazetinha Azul que circulou em 1900. Álvaro ainda fundou o periódico Folha Moderna em 1906 e se destacou como pintor (uma de suas mostras foi noticiada no Gazeta de Notícias de 1906).


Não por acaso, sua filha, Cecília Moncorvo Bandeira de Mello seguiu os passos da mãe como escritora e jornalista, destacando-se no mercado editorial durante quarenta anos. Em 1888, aos 19 anos, casou-se com o professor Horácio Rebello de Vasconcellos e adota o nome Cecília Moncorvo Bandeira de Mello Rebello de Vasconcellos. Com ele, teve um único filho, Henrique Rebello de Vasconcellos. Em 1907, iniciou a sua vida lítero-jornalística no jornal A Imprensa. Nessa data, ela adotou o curioso pseudônimo Madame Chrysanthème, Mme. Chrysanthème ou simplesmente Chrysanthème. Inspirada na obra Madame Chrysanthème (1887) do escritor e oficial da marinha francesa Pierre Loti, alcunha de Louie Marie Julien Viaud.


Cecília circulou pelos periódicos o Correio Paulistano, O Paiz, o Diário de Notícias, a Gazeta de Notícias, O Mundo Literário, A Ilustração Brasileira, A Única e O Cruzeiro. Consta, também, a encenação de uma de suas peças no Teatro Regina pela Companhia de Eugênia e Álvaro Moreyra e a sua constante presença como conferencista nos salões da época. Ao longo de sua trajetória, acumulou desafetos como Gilberto Amado, Lima Barreto, Humberto de Campos, Rui Barbosa. Em relação à Lima Barreto, Cecília se sentiu indignada por ele ter sido escolhido o responsável pela coluna “A Semana”, no periódico O Paíz, por ocasião do falecimento de sua mãe. Apesar dos desafetos ao longo de sua vida, foi bem próxima do cronista carioca João do Rio.


Publicado em 1929, o romance O que os outros não vêem, de Chrysanthème apresenta uma nova forma de narrar a condição feminina combatendo o discurso patriarcal nos romances. Trata-se de uma narrativa inovadora, na qual a autora ousa transgredir as regras do seu tempo e assim apresentar personagens femininas às voltas com as novidades da época. Como se nota, o romance traz um estudo da psicologia feminina, bem observado através do subtítulo “Romance moderno de psycho-analyse feminina”, que se pautava na relação amorosa entre a personagem Maria Thereza da Nóbrega Malheiro, uma mulher de 42 anos, que se envolveu com Carlos Eduardo Prates de 33 anos.


Desse modo, encerro esse pequeno texto, uma forma de homenagear e de difundir um pouco o trabalho dessas duas mulheres que abriram o caminho para tantas outras depois, desafiaram costumes e hábitos, apesar das dificuldades encontradas para publicar os seus escritos e de ocupar espaços territorialmente considerados masculinos até pouco tempo, enfim, muitas romperam e ainda rompem inúmeras barreiras.


*Luciene Carris é pesquisadora e historiadora (UERJ).

** O texto exprime a opinião do autor.




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