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BANDAS DE ROCK ALTERNATIVO. MÚSICA DE PROTESTO E RESISTÊNCIA


Guarulhos, 01 de agosto de 2021.

Luzimar Soares*


No decorrer da quinzena, sempre me pego pensando qual será o tema da próxima escrita. Gosto de falar sobre teatro, literatura, cinema, música, enfim, sobre coisas que alimentam a alma, e como escrever sobre isso me traz uma sensação de alegria e contentamento. Nessa quinzena, decidi que a música será o tema.



Foto: Marcelo Costa (screamyell)


Cresci ao som de forró e cantoria (assim chamamos a musicalidade dos repentistas que pegam suas violas, tocam e cantam, algumas vezes, músicas prontas; outras, desafios de “repentes”), músicas que, hoje, são chamadas de brega. De maneira geral, ouvíamos os forrós diretamente de um rádio movido a pilha. Luiz Gonzaga sempre foi o preferido. Asa Branca, considerada o “Hino do Nordeste”, tocava repetidamente. Hoje, ainda toca, e toca muito. O som das sanfonas sempre soou como um despertar mágico: os pés não param, o corpo se move. A sanfona, aliás, foi o primeiro instrumento musical que conheci, junto com o triângulo e o pandeiro, sempre formaram o trio maravilha do forró. Portanto, ainda que a música esteja na minha vida apenas como apreciadora, ela constantemente fez parte da minha trajetória de vida.


Porém, a música da qual quero tratar neste artigo é o Rock and Roll, o bom e contestador Rock. Nascido nos Estados Unidos da América no final dos anos de 1940, com influências advindas do Jazz, folk, country e blues, carregou, em sua estrutura de apresentação, sempre uma espécie de contra cultura, de protesto, de revolução.


Em terras brasileiras, o rock, também, aportou em meados da década de 1950, tendo como seu primeiro expoente, com músicas totalmente nacionais, o cantor Cauby Peixoto com a música “Rock and Roll em Copacabana”, composta por Miguel Gustavo. Por aqui, tivemos muitos artistas que se destacaram nesse estilo musical. Na representatividade feminina, destaco Rita Lee, que seja nos Mutantes, seja na banda Tutti Fruitti ou ainda, em sua carreira solo, é considerada a dama do Rock.


A fase efervescente do Rock nacional se deu nos anos de 1980. Muitas bandas, muitos artistas e, obviamente, incontáveis fãs, festivais, gravadoras, inúmeros discos gravados, vendidos, disputados. No meio de tudo isso, alguns artistas não estavam nas mídias, mas estavam tocando seus rocks, as chamadas bandas alternativas. É de uma dessas bandas de Rock alternativo que quero agora falar. Em Guarulhos, e de Guarulhos para o mundo, Carbônica.


Carbônica lançou, em 11 de junho de 2021, seu álbum intitulado “Apartamento 41”, trabalho este subsidiado pela Lei Aldir Blanc, disponível nas plataformas digitais. Mas este não é o único trabalho da banda. Carbônica é formada por três integrantes: Will Carbônica (guitarra e voz), Vini Carbônica (baixo e sampler) e Leandro Souza (bateria). Na estrada desde 2007, a banda é muito mais do que uma turma que toca Rock. Os integrantes da banda fazem parte de projetos na cidade, um desses trabalhos é o Projeto Clam, a reunião de artistas da cidade para divulgar seus trabalhos.


Eles criaram um selo (CLAM DISCO) para gravarem os novos artistas, uma revista para contar a história dos artistas da cidade (CLAM), e, para os fãs, a Fazine (CLAM_ZINI), uma casa ̸ estúdio para receber artistas de linguagens variadas (CASA CLAM - este espaço foi desativado em 2016) e até um suporte com gerador movido à gasolina para montagem de palcos e shows em locais públicos, como o Festival de Música na Rua (CLAM_DESTINO). Além disso, os integrantes da banda fazem parte de coletivos da cidade que trabalham com teatro e cinema. Inclusive, o cineasta André Okuma fez uma gravação com a banda, lançada nas plataformas digitais em 30 de setembro de 2015. Nas palavras do cineasta: “O projeto audiovisual da música "Se a cidade parar" da banda Carbônica é mais do que um videoclipe, roteirizado e gravado a partir da linguagem cinematográfica, ele é praticamente um curta-metragem”.


Com letras fortes e de denúncia, a banda tem um som penetrante, marcante, forte, atrai quem a ouve. Além disso, a música que fez parte da gravação acima traz, na letra, a descrição da dor do trabalhador que é cada dia mais diminuído e tratado como mercadoria, mercadoria esta que pode ser substituída facilmente. A arte musical do Carbônica é resistência através de suas letras.

Olhos vermelhos, pupilas dilatadas

Seu corpo podre já não serve pra nada

Veias entupidas, alto nível de estresse

Há gasolina no seu sangue pronta para explodir

Na estação da Sé, amanhã ele vai se mata

E não estranhe se a cidade parar.



O trabalho já citado - “Apartamento 41” - tem oito faixas. As músicas do disco são a tradução da vivência dos artistas neste momento de pandemia. Isolados em suas moradias, criaram um trabalho a partir de suas vivências, domando seus próprios demônios e mantendo vivo o caráter denunciatório de suas letras. Em uma das faixas: “A cidade parou (junto com meu coração)”, traz um misto de angústias do momento, além de críticas ao que vivenciamos neste contexto pandêmico. Isolados por questões sanitárias, todavia, sempre unidos pela arte, os “meninos” ̸ roqueiros do Carbônica nos brindam com um trabalho sensacional.


Fechava meus olhos e não tinha medo

Brindava as minhas angustias

Com drinks até no inferno

Para um corpo que só queria mais...


Sangram os meus olhos

Querem cortar os meus dedos

Não foi falta de aviso

Meu Deus tudo foi postado

Esquerda, Direita, no fundo não importa mais


A cidade de Guarulhos é berço de grandes artistas, é pujante na criatividade. O Rock alternativo, underground, ou ainda, de garagem, como queiram chamar os críticos de música, está muito bem representado e apresentado pela banda Carbônica que, em sua história e trajetória, agrega, une e promove outros artistas. E, assim, vivem a arte na integralidade.


Viva a arte, viva o Rock, viva o Carbônica!


*Luzimar Soares é historiadora (PUC-SP).


Referências:


https://rockdeverdade.com.br/banda-carbonica-se-apresenta-com-integrantes-do-autoramas-no-sesc-guarulhos/

https://rockdeverdade.com.br/banda-carbonica-se-apresenta-com-integrantes-do-autoramas-no-sesc-guarulhos/

http://screamyell.com.br/site/2019/03/25/faixa-a-faixa-carbonica-carbonica/

https://www.youtube.com/channel/UCa9XY73dxpg2YZ15zsrW7Pg

https://www.guarulhoshoje.com.br/2021/07/27/banda-carbonica-apresenta-show-do-novo-album-no-sabado/

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