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Avaliação enquanto processo

Guarulhos, 01 de junho de 2022.

Luzimar Soares*


Desde os mais primários aprendizados, seja na escola ou na vida, de uma maneira geral, passamos por processos avaliativos. Muitos desses processos são avaliações subjetivas e não têm nenhuma influência nas nossas vidas práticas, ou seja, “julgamentos” pelos quais passamos através do olhar das pessoas que nos cercam, ou, até mesmo, daquelas que apenas passam por nós em um esbarrão nas estradas da vida.


Crédito: wix.


Todavia, as avaliações chamadas de provas, que acompanham os processos educativos e as seleções de emprego, carregam um peso que nem sempre é levado em consideração pela sociedade. Justamente por já estar tão arraigado, é necessária uma classificação para, assim, separar os melhores. Mas o peso emocional disso já não é discutido.


Há alguns anos, tem crescido o número de pessoas que trabalham ensinando as outras a passarem por processos seletivos, os chamados “coaches”, especializados em entrevistas. Sempre me questiono sobre o peso psicológico desses processos. Vivemos sob o peso de avaliações diariamente, nada do que fazemos passa despercebido aos olhos dos julgadores. Em nossas atividades laborais, dependendo da atividade que exercemos, somos mais ou menos avaliados e ̸ ou julgados por um número maior de pessoas, ou seja, os trabalhadores da área de atendimento ao público são, de maneira geral, os mais expostos.


Nos processos de aprendizagem escolar, passamos por maneiras distintas de avaliações. Ainda que, hoje, os castigos físicos já não sejam mais utilizados como punição (para muitos, a concepção desse tipo de correção física não existe, todavia, em um tempo não muito distante, o uso de palmatória era uma constante desde os primeiros anos de vida escolar), atualmente, a pressão psicológica para não errarmos se tornou nossa companheira diária.


Muitos estudiosos defendem a avaliação com uma forma de melhoria e destacam que elas estão presentes na cotidianidade de todas as pessoas e em todos os aspectos. Para o estudioso Ivo José Both, a avaliação é uma forma de apreciar os resultados, em suas palavras:


Na verdade, a avaliação se constituiu em um processo de abrangência universal, presente onde quer que se busquem resultados positivos tanto em nível individual quanto em nível coletivo. A avaliação se destaca como processo de melhoria quando se trata de educação, identificando como a política educacional está sendo aplicada no âmbito de cada uma das iniciativas dela derivadas bem como em que nível os benefícios originados atingem favoravelmente as populações.

De acordo com o pensamento do pesquisador, as avaliações permitem a melhoria do ensino, haja vista ser um processo que se retroalimenta, avalia o aluno e, também, o sistema, portanto, possibilita a mudança de estratégia e de políticas educacionais. Analisadas da forma que o pesquisador coloca, e pensando na necessidade de melhoria constante dos processos de aprendizagem para possibilitar as adaptações necessárias, sim, as avaliações ̸ provas são bem positivas.


De todo modo, o aluno avaliado tem uma carga emocional que, talvez, ainda nos dias atuais, não seja levada em consideração. Vejamos: a criança, desde o início de seu processo de aprendizagem, mesmo que não tenha provas, tem processos que a avalia e que, com o passar do tempo, essas avaliações se tornam mais frequentes e mais exigentes. Talvez, apenas por instinto, ou por acreditarem que é positivo, os adultos fazem sempre comparações entre as crianças.


O tempo não diminuiu os testes, provas e afins, muito pelo contrário, com o início da vida laboral, as provas se multiplicam, triplicam ou até quadruplicam, tudo depende da profissão escolhida. As avaliações podem ser diárias, semanais, mensais, anuais, o certo é que elas nos acompanham. Aqui me vem uma questão: estamos mesmo preparados para tantos processos avaliativos? Temos, realmente, condições psicológicas de enfrentarmos as ansiedades e, obviamente, as muitas frustrações decorrentes desses processos?


De maneira geral, as sociedades têm se preocupado com as cargas emocionais decorrentes dessas cobranças, seja nas escolas nos anos iniciais, seja nas graduações e pós, ou ainda no trabalho? Como já referido, hoje, existem profissionais que trabalham para ensinarem as pessoas a se darem bem em seleções para cargos, orientam como se portarem, como falarem, como se vestirem para causarem boa impressão, etc. No entanto, mesmo com todas as orientações, falhamos, inevitavelmente vez ou outra, reprovamos em algo que gostaríamos de sermos aprovados. Quando isso acontece, como fica nossa capacidade de acreditarmos em nós memos?


Dentre todos os mundos aos quais fazemos parte, (atualmente, somos cada vez mais múltiplos), o mundo acadêmico é um dos que mais cobra. Alunos, professores, orientadores, secretarias, todos somos parte de um processo que precisa produzir, mostrar capacidade de criar, engajar, seguir normas e procedimentos rígidos e muito bem vigiados. O peso de tudo isso, as buscas por respostas, as ansiedades causadas pelo medo de falhar, têm, cada dia mais, deixado os (as) pesquisadores (as) com problemas de ansiedade.


Precisamos falar sobre essa somatória de cobranças em forma de avaliação, pois, a vida acadêmica está carregada, também, desse peso. Quando se está em uma universidade pública, existe uma aura de responsabilidade maior, afinal, estamos estudando “gratuitamente”. Esse pensamento se estende aos docentes e, por conseguinte, eles também têm que produzir muito mais. Os trabalhadores da educação, alunos (porque também são uma espécie de trabalhadores) e professores são avaliados absolutamente todos os dias. Um estudo feito por Michelle Firmino Guimarães levanta a questão e mostra que estudantes universitários estão expostos a momentos estressantes.


O ingresso na universidade pode colocar os alunos em contato com estressores específicos, tais como medo, ansiedade e inseguranças geradas pelas possíveis dúvidas e desilusões com a carreira escolhida, aquisição de novas e maiores responsabilidades, problemas na moradia, distanciamento da família, dificuldade no estabelecimento de relacionamento afetivo (Calais et al., 2007). Em alguns momentos e situações da vida acadêmica podem ser caracterizados por um ambiente estressante.

Portanto, além de pensar, compreender e analisar o estresse causado por esses processos avaliativos, talvez seja hora de começarmos a pensar em novos paradigmas, em outras formas de cuidar da saúde mental de todos nós. Somos humanos, precisamos de afetos e alteridades.

Referências:


BOTH, Ivo José. Avaliação planejada, aprendizagem consentida: é ensinado que se avalia, é avaliando que se ensina. Curitiba: Intersaberes, 2017.

GUIMARÃES, M. F., MARTINS VIZZOTTO, M., AVOGLIA, Maria Capelão, H. R., & Aparecida Faria Paiva, E. (2022). Depressão, ansiedade, estresse e qualidade de vida de estudantes de universidades pública e privada. Revista Psicologia, Diversidade E Saúde, 11, e4038. https://doi.org/10.17267/2317-3394rpds.2022.e4038


*Luzimar Soares é historiadora (PUC-SP/USP).

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