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As redes sociais e os espaços não concedidos

Guarulhos, 15 de outubro de 2021

Luzimar Soares*




Vivemos em um mundo midiático. As redes sociais fazem parte da vida e da cotidianidade de um número significativo de pessoas. Na atualidade, as redes socias servem, inclusive, para transações comerciais. Aliás, muitos profissionais as usam como a principal ferramenta de divulgação dos seus trabalhos. Em se tratando de Brasil, o alto índice de desemprego (de acordo com dados divulgados pelo IBGE, no segundo trimestre de 2021, o número de desempregados chega a 14,1% da população, totalizando 14,4 milhões de desempregados) levou uma enorme quantidade de trabalhadores a buscarem novas formas de subsistirem. Grande parte desses profissionais utilizam as redes socias para ofertarem seus serviços e produtos.


Crédito: Wix.


Na "midiatização" da vida atual, essas redes de sociabilidades se tornaram uma espécie de vitrine nesse espaço, que pode ser real ou imaginado. Em conversas, é muito comum ouvir frases do tipo: a vida das redes sociais diverge muito da vida real. Todavia, o que quero chamar a atenção é para algo muito comum e pouco discutido: os assédios sofridos pelas pessoas nos chamados "inbox" dessas redes sociais. Não raro, as mensagens privadas chegam, pode ser com um nem tão inofensivo “oi”, ou, em muitos casos, já uma mensagem mais próxima do tipo: “linda, tudo bem”; “meu anjo, vi que você é solteira no seu perfil”; “gostei de você”; etc.


Esse tipo de abordagem que, em um primeiro momento, pode parecer interessante, inofensivo, ou até lisonjeiro, é dirigido, especialmente, às mulheres que têm o status de solteira em seus perfis. O que leva a outro pensamento: o que faz um homem acreditar que o simples fato de uma mulher ser solteira dá, a ele, o direito de invadir sua privacidade?


Há muito que o feminismo busca deixar as mulheres seguras. Essa é uma luta de sempre na construção da sociedade humana. O avanço da tecnologia, as conquistas femininas e a evolução da ciência ainda não ensinaram que um espaço não dado é um espaço que não pode ser invadido.


Ao longo da história, criou-se uma romantização do assédio. Em rodas de conversas, comumente se fala sobre a mulher precisar de elogios para ter uma boa autoestima, e, não raro, diz-se: uma mulher que passa na frente de uma obra e não é cantada pelo pedreiro, fica logo triste. É, realmente, um elogio ser chamada de "gostosa" quando se está transitando sozinha em um lugar, e somos obrigadas a passar em frente a um bando de machos que se fiam na cumplicidade entre eles para nos "elogiar"?


Judith Butler diz que as ruas não são seguras para mulheres e pessoas trans. Percebo que as redes sociais, também, estão adquirindo uma conotação bastante perturbadora. Na história recente, em um caso de repercussão nacional, um advogado utilizou fotografias expostas em uma rede social para justificar o ato de seu cliente que cometeu um estupro. As fotografias da vítima foram utilizadas para descredibilizar e, assim, culpabilizar a vítima por ter sofrido um crime hediondo.


A segurança da mulher está sempre em cheque, e agora, também, está, ou talvez sempre esteve, nas redes sociais. É necessário que haja uma política mais punitiva para esses assédios disfarçados de mensagem. A fronteira entre a mensagem e o assédio é absurdamente tênue. O excesso de proximidade, que alguns acreditam ter, tira de si a obrigatoriedade de respeitar quando a mulher não responde. Não é não, inclusive nas redes socias. Assédio não precisa ser presencial. Muitas mulheres se sentem na obrigação de colocar em seus status que estão em um relacionamento sério, pois, assim como acontecem os linchamentos e cancelamentos virtuais, os assédios são corriqueiros. Desta maneira, o cerceamento do direito da mulher está posto, inclusive, no virtual.


O julgamento sobre como a mulher se comporta saiu da vida real e foi para a virtual. Não raro, nas conversas sobre o crime de estupro, surge a pergunta: “que roupa ela estava usando?” Pois bem, quando falamos das redes sociais, a pergunta é mais ou menos parecida: “Ela tem fotografias de biquini?” Como se a roupa desse a permissão para o assédio, bem como fornecesse carta branca para a violação da liberdade que a mulher tem sobre o seu próprio corpo e vida.


Nossos corpos são muito mais do que “pedaços” de carne para serem vistos e julgados pelos homens. Somos donas e temos todo o direito de usá-los como quisermos. Usamos, também, como forma política. Como nos mostra Judith Butler: “Desse modo, o corpo é menos uma entidade do que um conjunto vivo de relações; o corpo não pode ser completamente dissociado das condições ambientais e de infraestrutura da sua vida e da sua ação”. O que nos diz que nossos corpos, quando unidos a outros em atos políticos em um coletivo, têm a força de transformação; mas, no universo privado, é único, é exclusivo de cada um.


Receber mensagens em privado de homens que, em sua grande maioria, sequer conhecemos, é invasivo, grotesco, abjeto. É repugnante quando um “ser” manda uma mensagem perguntando se a mulher quer sair com ele. Obviamente, o toque não é sentido, todavia, este comportamento se aproxima do macho que fica na porta do banheiro feminino e puxa as mulheres pelos cabelos quando estas saem do local.


O medo, seja na vida real, ou na virtual, acompanha-nos o tempo todo. De acordo com Ângela Davis:


Ainda assim, uma em cada três mulheres será agredida sexualmente ao longo da vida, e uma em cada quatro meninas será estuprada antes de completar dezoito anos. Apesar dessas estatísticas alarmantes, a incidência da condenação de estupradores é de apenas 4% - e tais condenações representam apenas um percentual insignificante dos estupros que são de fato reportados.

Talvez esteja aí a resposta para o comportamento abusivo e invasivo de homens que acreditam ter o direito de invadir a vida das mulheres. Vamos falar sobre isso?



Luzimar Soares é historiadora (PUC-SP).


Referências:


BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.


DAVIS, Ângela. Mulheres, cultura e política. São Paulo: Boitempo, 2017.

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