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  • Foto do escritorCarlos Eduardo Pinto de Pinto

A casa brasileira: o neocolonial na revista feminina Vida Doméstica

Rio de Janeiro, 4 de julho de 2023

Carlos Eduardo Pinto de Pinto*


Por conta do meu último texto aqui no blog, Arquitetura neocolonial no Grajaú, algumas pessoas me escreveram querendo saber mais sobre a “moda” neocolonial nos anos 1920. Decidi partilhar trechos de um artigo em que abordo a campanha neocolonial na revista Vida doméstica, publicação voltada para o público feminino – embora na década de 1920 fosse apresentada como “revista do lar e da mulher”, direcionada a todos os membros da família –, que circulou entre as décadas de 1920 e 1960. A presença expressiva de matérias sobre o neocolonial em suas páginas ao longo dos anos 1920 e 1930 permite compreender como funcionava a campanha em prol do estilo arquitetônico: a revista enfatizava seu caráter moderno, incentivando que fosse adotado por seus leitores, considerados igualmente modernos; simultaneamente, destacava sua face tradicionalista, que o tornava adequado ao clima e à paisagem nacionais. A ênfase conferida às ideias de modernidade e tradição, tratadas como sinônimos de elegância e adequação à cultura local, indica as estratégias mobilizadas para vender, metafórica e literalmente, o neocolonial.


Essas táticas estavam em pleno acordo com o modo como Ricardo Severo e José Marianno, principais incentivadores do neocolonial no Brasil, o apresentavam. Vale lembrar que o neocolonial foi concebido como uma forma de homenagem ao período colonial – tomado como paradigma de arquitetura nacional –, ao mesmo tempo em que mobilizava técnicas contemporâneas de construção, sendo apreendido como um amálgama entre tradição e modernidade (AMARAL, 1994; KESSEL, 2003; LEVY, 2010). Ainda que tivessem perspectivas levemente distintas, Severo e Marianno defendiam o caráter vanguardista do estilo, quando em oposição ao ecletismo Beaux-Arts, mas o consideravam tradicionalista e conservador frente ao Art Déco e ao modernismo – que, em princípio, se mostravam menos afeitos à divulgação de uma retórica nacionalista. Embora essas coordenadas tenham mudado bastante ao longo da década seguinte, com o neocolonial sendo visto apenas como “passadista” – enquanto o modernismo assumia, em dada medida, um caráter nacionalista –, era assim que as ideias se organizavam no contexto que estou abordando aqui, os anos 1920.


Nesta década, as ocorrências sobre o neocolonial em Vida Doméstica envolvem tanto edifícios institucionais, quanto projetos em diferentes tamanhos e orçamentos, distribuídos por bairros de variados perfis na capital, conferindo valores simbólicos e/ou financeiros a dadas regiões. As praias de Copacabana, Leme e Leblon, bem como os “bairros aristocráticos” Tijuca, Santa Teresa e Botafogo eram apontados como ideais para receber as “casas apalaçadas” em estilo neocolonial (MORADIAS ideais, Vida Doméstica, n. 128, mai. 1928, p. 26), mas havia também projetos de baixo custo indicados para o “subúrbio carioca” (ARQUITETURA, Vida Doméstica, n. 99, maio 1926, p. 90).


Na apresentação dos projetos de arquitetura doméstica, é possível notar o caráter eminentemente comercial dos textos. Os perfis dos arquitetos e a apresentação das plantas, croquis e, em alguns casos, fotografias das casas prontas, visam “vender” o estilo, enfatizando sua superioridade em relação aos concorrentes, sobretudo o ecletismo. O esforço de legitimar o neocolonial como proposta arquitetônica mais sintonizada com a paisagem local, porque concebido em diálogo com a arquitetura colonial e sua resposta pragmática ao “meio”, vem acompanhado da ênfase em sua modernidade, de modo a desfazer qualquer impressão de que, por ser inspirado no passado, o estilo seria inadequado às necessidades do presente. Em alguns casos, são explicitados os valores dos projetos, com indicação de orçamentos mais baratos destinados aos bairros da Zona Norte, como em “O problema da casa é questão de momento” (Vida Doméstica, n. 75, abr. 1924, p.78s), em que o mesmo arquiteto concebeu uma casa luxuosa para Ipanema e outra, popular, para Vila Isabel. Ainda que o termo subúrbio, neste contexto, pudesse se referir a regiões abastadas fora do Centro (OLIVEIRA; FERNANDES, 2010), a ênfase no preço acessível do projeto para Vila Isabel chama a atenção.





Detalhes da matéria “O problema da casa é questão de momento” (Vida Doméstica, n. 75, abr. 1924, p.78). Vale perceber a distribuição equilibrada entre imagens e textos, uma característica marcante da revista, com a presença de um croqui e duas plantas, uma para cada pavimento.

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Como apontei no início do texto, Vida Doméstica se apresentava como a revista “do lar e da mulher”, o que pressupõe um público diversificado, embora com matérias e anúncios comerciais voltados diretamente às mulheres. Entre esses anúncios, a arquitetura não estava presente, já que, pela lógica do periódico, o tema não deveria interessar às mulheres. Em uma divisão arbitrária dos papéis atribuídos aos gêneros, elas deveriam apenas cuidar da decoração da casa comprada e/ou construída pelos homens da família. Neste âmbito, chama a atenção o artigo “A nossa casa? A casa brasileira” (Vida Doméstica, n.55, 01 set. 1923, p. 13), que se propõe a pensar o que seria a casa brasileira a partir de uma perspectiva crítica, duvidando de que o país tivesse um estilo próprio de moradia; ainda assim, aposta que o neocolonial - naquele contexto ainda referenciado simplesmente como colonial - seria o mais próximo de uma “casa brasileira” em termos de adaptação ao meio, quesito em que o ecletismo (nomeado como “cosmopolitismo”) se mostrava insuficiente, fora o fato de ser considerado “inestético”. Ao fim, o texto endereça explicitamente suas reflexões ao público masculino: “Vede a simplicidade triunfante dessas linhas, e pense como seria belo a construção dessas habitações tão delicadas e simples, onde a vossa alma, depois de um longo dia de fadiga e trabalho, poderia descansar junto da esposa e dos filhos, para sonhar”. Em “As modernas construções do Rio” (Vida doméstica, n. 80, set. 1924, p.94s), o texto novamente evoca a imagem de homens provedores chegando em uma casa confortável após um dia de labuta e encontrando “[a]s mulheres e [a]s crianças que se veem à sombra do lar”.


Tal recorte de gênero dá pistas de como se dava a adequação de discursos teóricos a respeito da arquitetura a um estrato da população considerado, a priori, alheio a esses debates. Pela lógica da revista (que não deve ser confundida com os fatos) as mulheres não poderiam comprar uma casa com dinheiro próprio, daí direcionar a matéria ao público masculino. No entanto, a interlocução sugerida pelos textos não deve pressupor que as mulheres não lessem os artigos sobre arquitetura e não está fora de cogitação a possibilidade de que fossem convocadas a decidir conjuntamente sobre um eventual investimento na aquisição de um imóvel.


Dando prosseguimento à análise dos textos, é notória a consolidação do neocolonial como o estilo preferido pelo editorial da revista. Diferente da matéria “A nossa casa? A casa brasileira”, mencionada acima, em que o neocolonial é indicado com certa reticência, em “O estilo colonial é o grande favorito do momento” (Vida Doméstica, n.73, fev. 1924, p.66) o tom é mais assertivo, assim como em “O estilo colonial deve ser adotado” (Vida Doméstica, n.67, 27 nov. 1923, p.67). Vale citar um trecho de “Arquitetura/ A casa brasileira”, matéria assinada por Roberto Magno de Carvalho (Vida Doméstica, n. 13, ago. 1927, p. 64ss), em que apresenta a trajetória do estilo, desde a campanha iniciada por José Marianno até as produções contemporâneas, responsáveis por criar um estilo “brasileiro”:

Vida Doméstica, continuando um extenso programa de divulgação das construções de mais original estilo e mais adequadas ao refinado gosto da época e às condições climáticas do Brasil, propõe-se a dar em todos os seus números, a exemplo do que hoje faz com a casa colonial, modelos, plantas e interiores das mais aristocráticas residências, devassando fotograficamente tantas e tão soberbas instalações (...)

Em resumo, as matérias apresentam o estilo como sinônimo de bom gosto e de racionalidade (contando com iluminação e circulação de ar adequadas às exigências da vida moderna), destacando a “brasilidade” dos projetos. Claro que tal “brasilidade” é totalmente arbitrária – a escolha da arquitetura colonial como paradigma se baseava na ideia de que os “desbravadores” portugueses teriam conseguido se adequar ao meio, criando um modelo de casa propício ao clima e relevo nacionais. Além desse pressuposto ser contestável, o fato de as casas se aproximarem do estilo colonial apenas em suas fachadas – espécies de mosaicos montados a partir de referências variadas, nacionais e estrangeiras –, já demonstrava o quanto a propalada adequação era limitada. Contudo, no plano discursivo, essas reflexões críticas não tinham espaço: para quem quisesse construir ou comprar uma casa realmente brasileira, o neocolonial era o estilo favorito do momento, sem dúvida!


(Este texto foi adaptado do meu artigo “O grande favorito do momento: o caráter moderno da arquitetura neocolonial na revista feminina Vida Doméstica nos anos 1920”. In: MAIA, Andréa Casa Nova; FAGUNDES, Luciana Pessanha. Independências e Modernismos: outras modernidades no Brasil Republicano. Rio de Janeiro: Telha, 2022).


Carlos Eduardo Pinto de Pinto é professor de História e historiador (UERJ)


Referências bibliográficas

AMARAL, Aracy (coord.). Arquitectura neocolonial: América Latina, Caribe, Estados Unidos. São Paulo: Memorial; Fondo de Cultura Económica, 1994.

KESSEL, Carlos. Vanguarda efêmera: arquitetura neocolonial na Semana de Arte Moderna de 1922. Estudos Históricos (Rio de Janeiro), Rio de Janeiro, v. 30, n.1, p. 110-128, 2003. Disponível em: http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/viewFile/2177/1316. Acesso em: 10 jul. 2021.

LEVY, Ruth. A exposição do centenário e o meio arquitetônico carioca no início dos anos 1920. Rio de Janeiro: EBA /UFRJ, 2010.

OLIVEIRA, Márcio Piñon; FERNANDES, Nelson da Nóbrega (org.). 150 anos de subúrbio carioca. Rio de Janeiro: Lamparina: Faperj: EdUFF, 2010.


Matérias de Vida Doméstica referenciadas

“A nossa casa? A casa brasileira”, Vida Doméstica, n.55, 01 set. 1923, p. 13.

Arquitetura”, Vida Doméstica, n. 99, maio 1926, p. 90.

“As modernas construções do Rio”, Vida doméstica, n. 80, set. 1924, p.94s.

CARVALHO, Roberto Magno de. “Arquitetura/ A casa brasileira”, Vida Doméstica, n. 13, ago. 1927, p. 64ss.

“Moradias ideais”, Vida Doméstica, n. 128, mai. 1928, p. 26.

“O estilo colonial deve ser adotado”, Vida Doméstica, n.67, 27 nov. 1923, p.67.

“O estilo colonial é o grande favorito do momento”, Vida Doméstica, n.73, fev. 1924, p.66.

“O problema da casa é questão de momento”, Vida Doméstica, n. 75, abr. 1924, p.78s.


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