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  • Foto do escritorLuiz Costa-Lima Neto

A bordo da corveta Bernardino de Sá

Rio de Janeiro, 01 de março de 2023.

Luiz Costa-Lima Neto*





É, sem dúvida, durante o trajeto da África para a América, que a situação dos negros se revela mais horrível. [...] Seus sofrimentos são de tal ordem que nenhuma descrição seria bastante fiel, embora entregássemos à imaginação mais fértil o encargo de pintar o quadro com suas verdadeiras cores. O artista só pode representar semelhantes cenas suavizando-lhes quanto possível a expressão.

(RUGENDAS, 1979 [Viagem Pitoresca Através do Brasil, 1827-1835], p. 252).




O encontro entre o pintor J. M. Rugendas e um traficante negreiro

(Rio de Janeiro,1825)



No início do século XIX, o Rio de Janeiro contava com a maior população escravizada urbana das Américas, a qual participava de aspectos bastante visíveis da vida da cidade, desempenhando uma quantidade grande de trabalhos e atividades sociais e religiosas. Com a chegada da Família Real portuguesa, em 1808, e a instalação da Academia Imperial de Belas Artes, em 1815, artistas estrangeiros passaram a se interessar em visitar o Brasil não apenas para pintar as belezas naturais e os costumes dos povos nativos, mas também para se beneficiarem com o patrocínio real e aristocrático. Além disso, livros de viagem, desenhados na década de 1820 e publicados na década de 1830, tornaram-se best sellers na Europa e nas Américas, promovendo seus autores e divulgando representações do Brasil internacionalmente (THOMAS, 2011).



“Negros no porão do navio”, Litogravura, J. M. Rugendas (1822-1825). Disponível em:

(preto e branco). Acesso em: 28 jan. 2023.


Foi assim que, entre os anos de 1822 e 1825, o jovem pintor e desenhista alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858) esteve no Brasil, integrando a Expedição Langsdorff, financiada pela realeza russa. Rugendas fez centenas de desenhos sobre a natureza e os costumes de várias regiões do país, incluindo o esboço intitulado “A bordo da corveta Bernardino de Sá”. Após brigar com o barão Langsdorff, líder da expedição, Rugendas embarcou no Rio de Janeiro de volta à Europa, em 1825, onde ampliou seu esboço, criando a litogravura “Negros no porão do navio”. A obra mostrava, além das figuras deitadas em primeiro plano, dezenas de homens, mulheres e crianças escravizadas no porão de um navio negreiro, além de dois de seus algozes brancos carregando o corpo de um africano, morto durante a viagem marítima. “Negros no porão do navio” tornou-se famosa ao ser incluída num conjunto de 100 litogravuras, publicadas em fascículos por Rugendas entre 1827 e 1835, na Alemanha e na França (SLENES, 2002), atualmente copiadas no livro Rugendas e o Brasil – Obra completa (Pablo Diener e Maria de Fátima Costa).


O esboço feito por Rugendas, representando seis mulheres escravizadas deitadas no porão da “corveta Bernardino de Sá”, parece estar relacionado ao ano de 1825, quando o artista alemão veio ao Rio de Janeiro, antes de embarcar para a Europa, ao mesmo tempo em que o jovem português José Bernardino de Sá (1802-1855) começava suas atividades no comércio transatlântico de escravizados (COSTA-LIMA NETO, 2017). Não nos parece impossível que Rugendas tenha estado num navio negreiro de Bernardino de Sá, com ou sem o seu dono, mas é improvável que os escravizados estivessem no porão da embarcação. Isso explicaria a existência de algumas incongruências no esboço “A bordo da corveta Bernardino de Sá”, como, por exemplo, o fato de as seis figuras femininas estarem deitadas em esteiras, além de envoltas com panos ou lençóis, o que nem de longe correspondia ao duro cotidiano dos navios negreiros. Da mesma maneira, na litogravura “Negros no porão do navio”, Rugendas aumentou o espaço exíguo destinado aos escravizados, além de iluminar, ventilar o ambiente e aumentar a altura do teto do porão da embarcação. Diferentemente da litogravura de Rugendas, contudo, a superlotação era a regra nas viagens negreiras e cada escravizado contava com um espaço mínimo, não conseguindo sequer se sentar, espremido junto a outros 500 ou mais indivíduos, sem luz, ventilação, com pouca água potável e comida de baixa qualidade (REIS et al., 2010).




“A bordo da corveta Bernardino de Sá”, Desenho a lápis,. J. M. Rugendas (1822-1825). Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_iconografia/icon1253/icon1253.jpg Acesso em: 28 jan. 2023.



Rugendas parece ter criado uma ficção, mas uma ficção baseada na realidade e na documentação conhecida pelo público da época sobre os navios e os traficantes negreiros. José Bernardino de Sá – cujo sobrenome foi referido no título do desenho de Rugendas – acabou se tornando o maior traficante de escravizados no segundo quartel do século XIX, tendo capitaneado ao menos 50 viagens negreiras entre os anos de 1825 e 1851. Ele transportou em seus navios aproximadamente 20.000 africanos escravizados, dos quais cerca de 2.500 morreram nas travessias marítimas (PESSOA et al., 2021). Ao longo de 26 anos de atividade,incluindo o período 1831-1850, quando o comércio transatlântico de africanos se tornou ilegal, o traficante negreiro adquiriu o palacete próximo onde viveu a Marquesa de Santos (atual Museu da Moda), em São Cristóvão, próxima à Quinta da Boa Vista, o jornal O Mercantil, além de fazendas no litoral paulista, utilizadas no desembarque de escravizados. Bernardino de Sá recebeu a comenda da Ordem da Rosa e, durante os anos de 1845 a 1851, foi presidente da diretoria do principal teatro da capital imperial, o Teatro de São Pedro de Alcântara (atual Teatro João Caetano), contratando a peso de ouro solistas estrangeiras de ópera italiana (COSTA-LIMA NETO, 2018). Por seu mecenato cultural supostamente desinteressado, ele foi condecorado por Dom Pedro II com os títulos de Barão e Visconde de Villa-Nova do Minho. Meses depois, contudo, no auge de seus 53 de idade, faleceu vitimado pelo antraz.




Legenda: Assinatura de José Bernardino de Sá. 1850. Arquivo Nacional. Código de referência: BR RJNRIO.84.0.ACI.06821. Agradecemos ao historiador Thiago Campos Pessoa por compartilhar conosco esta referência.



José Bernardino de Sá se tornou multimilionário, acumulando um patrimônio de 5.000 contos de réis, correspondendo a quase 17 % da despesa geral de todo o Império no exercício de 1854-1855. Para fins de comparação, se tomarmos por base 17% do orçamento público aprovado no Brasil para o ano de 2020 (totalizando 3,6 trilhões de reais), José Bernardino de Sá teria um patrimônio de 600 bilhões de reais, ocupando o posto de terceiro homem mais rico do mundo, atrás apenas de Jeff Bezos e Bill Gates (BONFIM, 2020).


Valeu a pena Rugendas ter ido à região portuária e ao mercado do Valongo para ver o desembarque e o comércio de escravizados, depois representando, ainda que de maneira algo ficcional, seus sinistros personagens e instrumentos de trabalho. Rugendas não era um radical e defendia a abolição apenas gradual da escravidão, além de manter uma posição ambígua em relação aos negros (SLENES, 2002, p. 153). Para ele, os negros eram inferiores aos brancos europeus, apesar de poderem “evoluir”, tanto "espiritualmente" como "fisicamente". Rugendas acreditava, neste sentido, que os crioulos (negros nascidos no Brasil) eram mais polidos que os africanos, devido ao fato de os primeiros estarem mais próximos dos valores da civilização (europeia) e da cristandade. Por isso, o pintor alemão frequentemente representava os negros nascidos no Brasil vestidos com roupas civilizadas, enquanto os africanos apareciam semidesnudos.


Dentro de seus limites eurocêntricos e cristãos, Rugendas fez de sua obra um instrumento de denúncia do tráfico de escravos. Apesar de o esboço “A bordo da corveta Bernardino de Sá” e da litogravura “Negros no porão do navio” parcialmente suavizarem as condições subumanas dos navios negreiros, ambas não deixavam de mostrar como as embarcações utilizadas no comércio transatlântico de africanos eram locais insalubres e com índices altos de mortalidade. Assim, estas e outras obras de Rugendas influenciaram a esfera política e as lutas abolicionistas no século XIX, mobilizando afetos de homens e mulheres e contribuindo para criar uma sensibilidade transnacional contra o tráfico negreiro e a escravidão, antes de serem finalmente abolidos no Brasil.



Referências bibliográficas:

BONFIM, Elber Ramos. Música, política e tráfico negreiro – tensões e representatividades no Imperial Teatro de São Pedro de Alcântara. IV Simpósio Internacional Música e Crítica. Centro de Artes – Universidade Federal de Pelotas, 23‐24 de novembro de 2020.

COSTA-LIMA NETO, Luiz. 2017. “Teatro, tráfico negreiro e política no Rio de Janeiro imperial (1845-1858): os casos os casos de Luiz Carlos Martins Penna e José Bernardino de Sá.” ArtCultura, XIX/34, 2017.

COSTA-LIMA NETO, Luiz. Entre o Lundu, a Ária e a Aleluia: música, teatro e história nas comédias de Luiz Carlos Martins Penna (18233-1846). Rio de Janeiro: Livraria e Edições Folha Seca, 2018.

DIENER, Pablo; COSTA, Maria de Fátima (orgs.). Rugendas e o Brasil - Obra completa. São Paulo: Editora Capivara, 2002.

PESSOA, T. C.; SARAIVA, L. F.; SANTOS, S. A. (Orgs.). Vida, fortuna e morte: a trajetória de José Bernardino de Sá – Barão e Visconde Villa Nova do Minho. IN PESSOA, T. C.; SARAIVA, L. F.; ALMICO, R. “Tráfico & Traficantes na ilegalidade: o comércio proibido de escravos para o Brasil (c. 1831-1850)I. São Paulo: Hucitec, 2021.

REIS, João José, GOMES, Flávio dos Santos, CARVALHO, J. J. de. O alufá Rufino: tráfico, liberdade e escravidão no Atlântico negro (c. 1822 – c. 1853). São Paulo: Cia. das Letras, 2010.

RUGENDAS, Johann Moritz [João Maurício]. Viagem Pitoresca Através do Brasil. Tradução: Sérgio Milliet. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1979 [1827-1835].

SLENES, Robert W. African Abrahams, Lucretias and Men of Sorrows: Allegory and Allusion in the Brazilian Anti-slavery Lithographs (1827-1835) of Johann Moritz Rugendas. Slavery & Abolition: A Journal of Slave and Post-Slave Studies, 23:2, 147-168 , 2002.

THOMAS, Sarah. “On the Spot”: travelling artists and Abolitionism, 1770-1830. Atlantic Studies 8 (2), p. 213-232, 2011.





*Luiz Costa-Lima Neto é professor de música na Pós-Graduação em Arteterapia da Clínica Pomar (Faculdade Vicentina) e de composição, percepção, arranjo e teoria nos Cursos Técnico e de Formação da Escola de Música Villa-Lobos (RJ). Pós-Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense, Mestre e Doutor em Musicologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Bacharel em Composição Musical pela Universidades Integradas Estácio de Sá, Especializado em Musicoterapia e Licenciado em Educação Artística com Habilitação Plena em Música pelo Conservatório Brasileiro de Música. Publicou os livros The Experimental Music of Hermeto Pascoal and Group (1981-1993): Conception and Language (Pendragon Press, 2015); Music, Theater and Society in the Comedies of Luiz Carlos Martins Penna (1833-1846): amidst the Lundu, the Aria, and the Alleluia (Lexington Books, 2017); Entre o Lundu, a Ária e a Aleluia: música, teatro e história nas comédias de Luiz Carlos Martins Penna (1833-1846) (Folha Seca, 2018). Recebeu o Prêmio CAPES de Tese na área de Artes/Música (2015), o II Prêmio de Estudos Musicológicos EuroLatinoAmericanos Príncipe Francesco Maria Ruspoli (2016), o Prêmio FUNARTE de Produção Crítica em Música (2017) e menção honrosa no I Concurso Mem de Sá – Histórias do Rio - Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro (2017).

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