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A arte da dança e o espírito de brasilidade: uma bailarina entre dois mundos

Rio de Janeiro, 01 de outubro de 2021.

Luciene Carris*



A palavra baderna é uma expressão exclusiva na língua portuguesa, sempre associada pejorativamente à desordem, confusão ou bagunça. O substantivo feminino que define a ausência de regras foi introduzido nos Oitocentos, quando uma jovem bailarina italiana causou frisson entre os seus fãs mais animados, que ficaram conhecidos como baderneiros.


Crédito: WIX.


Em agosto de 1849, a bordo do vapor “Andrea Dória” chegou ao Rio de Janeiro uma trupe de artistas, a Companhia Lírica Italiana. O grupo foi contratado pelo maestro italiano Gioacchino Giannini, radicado no Brasil desde 1846, e professor de Carlos Gomes no Conservatório de Música. No rol de artistas, se incluía Marietta Baderna, que ficou conhecida como Maria Baderna, uma figura interessante do cenário cultural dos Oitocentos.


Desde o início, a artista causou certo alvoroço na cidade. O seu desembarque foi um tanto peculiar. A jovem italiana desceu da embarcação carregada nos braços atléticos de um remador desconhecido e praticamente despido para os padrões da época. A sua chegada e da companhia foi noticiada na seção “Theatro de S. Pedro de Alcantara” do periódico O Beija-Flor, que circulou entre 1849 e 1851. A matéria intitulada “Début da Sra. Marietta Baderna” revelou expectativas sobre a sua vinda e enaltecia os seus atributos físicos, como se observa na passagem “(...) falar de gargantas é um pouco mais fácil que o contar de pernas, e pernas como as da Sra. Marietta, que são umas pernas poéticas, umas pernas que, embora consideradas do domínio público pertencem muito a sua dona” (O Beija-Flor, 1849, ed. 0027, p. 06).



Crédito: Vera Maria A. de S. Sanchez (Tese).


Nascida na província de Piacenza em 1828, ela ingressou na escola do renomado maestro de dança Carlo Blasis, também diretor do Teatro ala Scala de Milão, por influência do seu pai, o médico e músico Antonio Baderna. Ao que tudo indica o contexto da Primeira Guerra de Independência Italiana entre 1848 e 1849, que envolveu o Reino da Sardenha e o Império Austríaco, foi o estopim para a fuga do pai e da filha para o Brasil. Até então, o reconhecimento nos principais palcos europeus como Scala de Milão e no Convent Garden era dividido entre o seu engajamento político, o teatro e os seus fiéis seguidores, muitos cortejadores, que a sempre acompanhavam (Corvisieri, 2001, p. 69).


O seu pai que também era seu empresário, faleceu no ano seguinte de uma doença tropical que vitimava a população carioca, a febre amarela. Baderna atuou no Teatro São Pedro de Alcântara, após o incêndio deste, foi para o Teatro São Januário, no Teatro Lírico Fluminense. Ainda de acordo com os seus biógrafos, Marietta desposou o maestro Giannini, com quem teve filhos. Por motivo de doença, depois de viúva, com os filhos pequenos viajou para Europa, onde permaneceu entre 1861 e 1864. De volta ao Brasil, há o registro da participação em alguns espetáculos e anúncios como professora de dança entre 1874 e 1884. Muitos dados sobre os últimos momentos de sua vida são ainda um enigma.


Para além da expressão que ficou como legado no nosso imaginário e usada no nosso cotidiano, a análise de sua trajetória pode incentivar caminhos para interpretações sobre o contexto sociocultural da sociedade escravista e patriarcal da segunda metade do século XIX. Quando a companhia chegou ao Rio de Janeiro em 1849, o Brasil alcançara a estabilidade política, e como salientou José Murilo de Carvalho, “(...) a presença de um imperador que se dizia nascido para as artes e as letras fez com que houvesse durante o Segundo Reinado um apreciável desenvolvimento da literatura, da música, do teatro, das artes plásticas e da fotografia” (Carvalho, 2012, p. 28).


Não por acaso o futuro Barão do Rio Branco, José Maria da Silva Paranhos, então um jovem cronista do periódico Jornal do Commercio, revelou, em 1851, na seção “Cartas ao amigo ausente” que “o Rio de Janeiro tem mudado tanto, que custa a conhecê-lo”, em outra ocasião, ao comentar sobre os hábitos e costumes revelou uma “febre dançante se apossou do espírito, ou antes das pernas dos habitantes desta boa cidade do Rio de Janeiro” (Paranhos, 2008, p. 355). A cidade foi invadida por bailes, concertos, reuniões e festas, que se converteram em espaços de sociabilidades. O teatro, era o local ideal para se ver e se visto, e onde se demonstrava os melhores hábitos da civilidade cuja inspiração vinha da Europa, sobretudo da França.


A bailaria que alcançou enorme sucesso com o Lago das Fadas, entre outros espetáculos, decidiu apresentar o lundu, o que causou controvérsia nos jornais, dividindo opiniões até. Muitos expectadores abandonaram o espetáculo, enquanto outros aplaudiram. Afinal, uma bailarina de origem europeia ameaçava um ideal de civilização, que excluía o elemento de origem africana e a sua cultura. O pretendido refinamento daquela aristocracia não abarcava ritmos populares, sobretudo os de origem africana como lundu e maxixe, considerados como imorais e indecentes devido a sensualidade característica e a liberdade dos movimentos. Aí talvez possamos vislumbrar a provocação de Marietta Baderna como um “espírito de brasilidade”, que não se intimidou e se apresentou em outras ocasiões com Giuseppi De Vechi e outro bailarino brasileiro, além dos “grupos do povo” (Corsevieri, 2001, p 128).


A polêmica se estendeu em vários períodicos, e marcou a sua trajetória no Brasil, até o apagamento de muitos detalhes sobre a sua vida. Não era uma novidade para bailarinas como Baderna a encenação de danças folclóricas e de outros ritmos. Contudo, o Romantismo associou à figura da bailarina “a sílfide etérea”, inspirado no ballet La Sylphide estreado em 1832 na Ópera de Paris, cujo imaginário envolve a leveza, a pureza e o controle etc. O certo é que a sua trajetória é cercada de mistérios e por visões romanceadas sobre a sua trajetória no Brasil, que fornecem elementos formidáveis para romances, espetáculos ou até filmes.


Dedico esse texto ao saudoso amigo e professor Aniello Angelo Avella.


*Luciene Carris é historiadora (UERJ).


Referências:


O Beija-Flor: jornal de instrução e recreio (1949-1951). Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/897469/282 Acesso em: 30 set. 2021.

CARVALHO, José Murilo de. Introdução. In: _______(coord.). A construção nacional (1830-1889). Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p. 19-36.

CORVISIERI, Silverio. Maria Baderna: a bailarina de dois mundos. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2001.

PARANHOS, José Maria da Silva. Cartas ao amigo ausente. Rio de Janeiro: ABL, 2008.

SANCHEZ, Vera Maria A. de S. A bailarina – memória da construção discursiva de um mito na imprensa do século XIX. Tese (Doutorado), Programa de Pós-Graduação em Memória Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.

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