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É necessário compreender Cultura?


Guarulhos, 01 de abril de 2022.

Luzimar Soares*


Durante muito tempo, acreditei que Cultura era algo que estava distante da realidade da maioria das pessoas. Não me passava pela cabeça que meu forró, seja a dança a música, as reuniões de fim de tarde entre os jovens, as brincadeiras de rodas das crianças, o ajuntamento de pessoas para desbulhar milho ou feijão, as fogueiras de São João e São Pedro, dentre tantas outras manifestações são expressões culturais e fazem parte da nossa e da minha história.



Xilogravura "Forró de Regina"/Regina Drozina. Crédito: Arquivo Sesc.

Há alguns anos, durante conversa com colegas de trabalho, surgiu o tema Cultura, neste caso específico, falávamos sobre música. De acordo com meu colega, ele pagava escola de música para suas filhas: uma estudava piano; e a outra, flauta. Sua reclamação: “pago uma fortuna para elas estudarem bons instrumentos musicais e, cheguei em casa hoje, e as duas estavam tocando um determinado artista que toca o estilo musical denominado de forró”.


Seguimos uma discussão acalorada sobre o tema, pois, naquele momento, eu já compreendia alguns conceitos de Cultura, e não consegui ficar quieta diante da afirmativa dele: “gasto para elas aprenderem uma cultura e vêm me tocar isso? Desde quando isso é Cultura? Elas têm que aprender a tocar Beethoven, Bach, não essa porcaria.” Obviamente, não silenciei, mas, durante muito tempo, continuei me perguntando por quê? Por que as classes mais abastadas acreditam piamente que a Cultura de massa, não é Cultura?


As sociedades foram moldadas ao longo da história humana por quem manda, ou seja, os donos do poder também definem as culturas dominantes, ou hegemônicas. No entanto, as massas sempre tiveram suas próprias manifestações culturais. Algumas dessas manifestações sofrem transmutações. Como já mencionei, meu colega de trabalho indignou-se por ver as filhas tocando forró, pois, para ele que se considera classe média alta, o forró é um insulto. Todavia, desde a década de 1990, esse estilo musical se espalhou pela cidade de São Paulo, inclusive, naquela década, muitas casas noturnas especializadas nesse ritmo foram abertas na cidade.


É bem verdade que, na cidade de São Paulo, o forró se transmutou e ganhou a alcunha de forró universitário ou forró pé de serra, como se nesse ritual de rebatizar, o estilo musical adquirisse uma nova feição, uma nova roupagem e, portanto, estivesse à altura de ser consumido pelas elites. Esse não é um “privilégio” exclusivo desse estilo musical. Não raro, ouvimos falar que funk não é música, porém, em toda festa da alta sociedade, toca-se funk, dança-se funk, vive-se a cultura popular.


Estudiosos como E. P. Thompson, que dedicou anos de sua vida a estudar as manifestações das culturas populares, escreveu sobre uma forma de resistência das pessoas pobres da Inglaterra, entre outras coisas, um dos seus livros traz um capítulo dedicado a estudar: A venda de esposas. Em seu trabalho de compreender um comportamento social, Thompson descortinou o que levava aquelas pessoas a praticarem essa transação. Havia proibição de divórcio para os pobres, sendo assim, desenvolveram suas próprias formas de direito de refazer suas vidas. A ritualização da venda das mulheres seguia a série de regras e, sim, mostrava a dominação masculina, como o autor fala: “A venda da esposa certamente nos fala de dominação masculina, mas isso é algo que já conhecemos”.


Sendo assim, o que, em seus estudos, Thompson nos mostra é que os pobres sempre lutaram por seus espaços. Numa repetição da hegemonia cultural, entre os menos abastados, o patriarcado também impera, todavia, como uma forma de insurreição. Essa parcela da população desenvolveu sua própria forma de cultura de separação. Desse modo, em qualquer nível social, existem costumes e culturas.


A estudiosa Beatriz Sarlo versa sobre a questão Cultural como “práticas e hábitos” para gerenciar o mundo. A cultura popular é uma forma de criar caminhos para resistir, existir e se fazer presente. Para ela:


[...] porque todo objeto de cultura emerge em condições que não o determinam, mas cuja pregnância encontra as formas mais diversas de oferecer-se à leitura, e, por outro lado, os sistemas e as relações de produção são artefatos culturais, práticas e hábitos inscritos pela cultura como modos de organizar o mundo material.

Nossas manifestações culturais fazem parte daquilo que somos enquanto sociedade. A cultura patriarcal busca manter a mulher como serva do homem. Até os dias atuais, não é raro encontrar pessoas que acreditam que o ser masculino é superior a ao ser feminino pelo simples fato de ele ser homem. Nesse nível de pensamento, a Cultura se solidificou de tal modo que todas as lutas femininas, ainda, não conseguiram dissipar a ideia de que o homem pode, simplesmente, julgar o corpo feminino porque ele é homem. Segundo Naomi Wolf:


O direto do homem de julgar a beleza de qualquer mulher, enquanto ele próprio não é julgado, não é questionado porque é considerado divino. Tornou-se de tamanha importância que a cultura masculina o exerça porque ele é o último direito não contestado a permanecer intacto dentre a antiga lista dos privilégios masculinos: aqueles que se acreditava terem sido concedidos por Deus, pela natureza ou alguma outra autoridade absoluta para que todos os homens exercessem sobre todas as mulheres.

Se nos preocuparmos em compreender a cultura, veremos que ela é utilizada não só como forma de distinção, mas também e, principalmente, de dominação. Vivemos, hoje, uma luta da comunidade LGBTQIA+ pela adoção de vocabulário neutro, e, nessa arena, as tensões são enormes. Os defensores da manutenção da língua como está dizem que o idioma precisará ser corrompido para a utilização do TODES. Será? A língua é viva, transforma-se, adapta-se. Se trouxemos o “delete” do inglês e, hoje, foi transformado em um verbo, porque o TODES e outras palavras não podem ser introduzidas?


Cultura Erudita, Cultura de Massa ou Popular, as costuras que se cruzam nas culturas tecem convivências. Compreender e respeitar a Cultura do outro, aceitar a diversidade cultural, saber que um estilo musical, um comportamento social que não oprime o outro e, especialmente, considerar que um comportamento que foi moldado por uma cultura opressora tem a necessidade de modificação para não ferir as demais pessoas é essencial.


*Luzimar Soares é historiadora (UERJ).


Referências:

SARLO, Beatriz. Paisagens Imaginárias. São Paulo: Edusp, 2005.

THOMPSON, E. P. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

WOLF, Naomi. O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.

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